A carta anual de 2026 de Larry Fink, presidente da BlackRock, traça um diagnóstico incômodo sobre o modelo econômico global e propõe o investimento de longo prazo, com amadurecimento da sustentabilidade, como resposta à desigualdade crescente. O que isso significa na busca de equilíbrio em um capitalismo em transição?
Todo ano, a carta que Larry Fink envia aos investidores da BlackRock – a maior gestora de ativos do mundo, com US$ 14 trilhões sob gestão – funciona como um termômetro do ânimo do capitalismo global. Em 2026, o termômetro de Larry Fink marca febre, mas apresenta um mapa estratégico para a próxima década. É um convite à ação para gestores, líderes e profissionais comprometidos com um futuro mais equilibrado, inclusivo e sustentável.
Após leitura e análise da carta de 2026, identifico um forte diagnóstico: o velho modelo do capitalismo global está se fragmentando. A busca por autossuficiência em energia, defesa e tecnologia tem levado países a repensarem cadeias de valor, políticas públicas e modelos de governança.
Entretanto, a crítica mais provocadora não é sobre geopolítica. É sobre distribuição. Desde a queda do Muro de Berlim, mais riqueza foi criada do que em toda a história humana anterior. Mais de um bilhão de pessoas saíram da pobreza extrema. Empresas obtiveram acesso a mercados imensamente maiores. Consumidores ganharam acesso a bens mais baratos. Mas nos países ricos, os benefícios foram para poucos.
E o mecanismo dessa concentração é simples e pouco discutido: a maior parte da riqueza fluiu consistentemente para quem possui ativos, não para quem trabalha – para os mercados de capitais – e poucas pessoas estavam neles. Desde 1989, cada dólar investido no mercado de ações americano cresceu mais de 15 vezes o valor de um dólar atrelado ao salário médio. Ou seja: ser proprietário de ativos financeiros foi, nas últimas décadas, muito mais lucrativo do que trabalhar.
“O capitalismo está funcionando – só não para pessoas suficientes. E o foco em investimentos de curto prazo não é solução para isso.” – Larry Fink.
Após leitura e análise da carta de 2026, identifico um forte diagnóstico: o velho modelo do capitalismo global está se fragmentando. A busca por autossuficiência em energia, defesa e tecnologia tem levado países a repensarem cadeias de valor, políticas públicas e modelos de governança.
Entretanto, a crítica mais provocadora que vejo não é sobre geopolítica. É sobre distribuição. Desde a queda do Muro de Berlim, mais riqueza foi criada do que em toda a história humana anterior. Mais de um bilhão de pessoas saíram da pobreza extrema. Empresas obtiveram acesso a mercados imensamente maiores. Consumidores ganharam acesso a bens mais baratos. Mas nos países ricos, os benefícios foram para poucos.
E o mecanismo dessa concentração é simples e pouco discutido: a maior parte da riqueza fluiu consistentemente para quem possui ativos, não para quem trabalha – para os mercados de capitais – e poucas pessoas estavam neles. Desde 1989, cada dólar investido no mercado de ações americano cresceu mais de 15 vezes o valor de um dólar atrelado ao salário médio. Ou seja: ser proprietário de ativos financeiros foi, nas últimas décadas, muito mais lucrativo do que trabalhar.
“O capitalismo está funcionando – só não para pessoas suficientes. E o foco em investimentos de curto prazo não é solução para isso.” – Larry Fink.
Concordo que o problema não é a geração de valor, mas a sua distribuição. O capitalismo continua funcionando, mas para um número cada vez menor de pessoas. E a inteligência artificial, longe de ser uma solução, ameaça repetir esse padrão em escala ainda maior, ampliando essa concentração ainda mais rápido.
Um dos alertas mais pertinentes da carta refere-se à inteligência artificial: sem governança adequada, a IA pode acelerar a concentração de riqueza nas mãos de quem já detém ativos e tecnologia. A história das grandes inovações tecnológicas sugere que o valor se concentra nas empresas que constroem e implantam a tecnologia – e nos investidores que as detêm. A tecnologia não cria prosperidade automática; ela a canaliza para quem já está posicionado. Se a participação nos mercados de capitais não se ampliar junto com os ganhos da IA, a prosperidade vai parecer cada vez mais distante para quem está de fora.
Para Larry Fink, a solução não é frear a IA nem redistribuir seus lucros via tributação. É garantir que mais pessoas se tornem proprietárias – acionistas – do progresso tecnológico. Isso requer ampliar o acesso aos mercados financeiros de forma estrutural e sistêmica.
Para nós que atuamos com sustentabilidade e também para gestores e líderes organizacionais, a carta de Larry Fink traz implicações práticas que vão além da macroeconomia. Em primeiro lugar, ela reafirma que o horizonte importa. Em um mundo saturado de ruído de curto prazo, as organizações que investem em estratégia com visão de longo prazo – em infraestrutura, em pessoas, em inovação – são as que capturam os ganhos compostos do crescimento econômico.
Em segundo lugar, a fragmentação do capitalismo global impõe novas demandas de resiliência. A autossuficiência que países buscam hoje é cara no curto prazo, mas pode representar vantagem competitiva no longo prazo. Empresas que antecipam esse movimento – diversificando cadeias de suprimentos, investindo em capacidade local, construindo parcerias regionais – estarão melhor posicionadas.
É fundamental salientar para quem atua com sustentabilidade, ESG e estratégia, que esse movimento não representa apenas risco, mas oportunidade de redesenho sistêmico. A economia circular, por exemplo, ganha nova relevância: ao priorizar eficiência de recursos, resiliência logística e inovação regenerativa, organizações podem alinhar competitividade com responsabilidade socioambiental. A fragmentação do modelo antigo possibilita, portanto, não retração, mas reimaginação estratégica.
A carta também apresenta exemplos concretos de como diferentes economias estão respondendo aos desafios do capitalismo em transição:
Índia: utiliza a penetração de smartphones como porta de entrada para inclusão financeira;
Japão: uma mudança de política trouxe 10 milhões de novos investidores em três anos;
Alemanha: reformas previdenciárias podem aprofundar mercados de capitais europeus;
EUA: debate sobre a sustentabilidade da Previdência Social.
Esses casos reforçam que não há fórmula única, mas há princípios universais: transparência, educação, acesso e visão de longo prazo.
Em uma nota à parte, Larry Fink volta a defender o que chama de “pragmatismo energético”: nenhuma fonte isolada pode suprir a demanda crescente por eletricidade. Gás natural, energia solar, nuclear, armazenamento em baterias e redes modernas precisam avançar juntos. Assim, ele argumenta que a transição energética não pode ser ideológica, mas pragmática. A mensagem é de equilíbrio – e representa uma continuidade da posição da BlackRock de que a transição energética deve ser gerida com responsabilidade, sem ideologias que ignorem a realidade do abastecimento e da acessibilidade.
Aqui, vejo um elo com a economia circular: a expansão da energia solar exige cadeias de suprimento resilientes. Concentrar a fabricação de baterias e componentes críticos em um único país (China) é um risco geopolítico e de sustentabilidade. A resposta é investir em diversificação e reciclagem de minerais críticos – um pilar da economia circular aplicada à geoestratégia.
Outro ponto importante: a agenda climática não morreu, mas amadureceu. Saiu do voluntarismo performático e entrou na era da integração sistêmica – onde cada decisão de portfólio, cada escolha de fornecedor, cada plano de expansão precisa considerar riscos e oportunidades de longo prazo. Por isso, a governança corporativa assume papel central.
A fragmentação do capitalismo tradicional não representa o fim – é o reinício de um novo jogo. E, nesse jogo, ESG deixa de ser diferencial para se tornar condição de convergência, com governança sólida, estratégia clara e compromisso inegociável com o bem comum.
Em um mundo de polarizações, o equilíbrio emerge como competência estratégica essencial. Não basta gerir riscos ambientais e sociais no nível da organização. É preciso pensar em sistemas – em como as organizações contribuem (ou não) para que mais pessoas possam participar do crescimento que ajudam a criar. Essa é a fronteira mais importante da governança corporativa nos próximos anos. Para quem trabalha com sustentabilidade, ESG e governança, isso significa:
Integrar métricas ESG ao núcleo da tomada de decisão, não como apêndice;
Promover diálogo multissetorial entre governo, setor privado e sociedade civil;
Priorizar indicadores de impacto real, além do compliance formal;
Cultivar resiliência organizacional frente a choques geopolíticos e climáticos.
Em suma, penso que a carta de 2026 de Larry Fink é, no fundo, uma defesa do investimento de longo prazo. Para ele, quando mais pessoas se tornam proprietárias do crescimento econômico de seus países – via aposentadoria, via ETFs, via carteiras digitais – a democracia e o capitalismo se reforçam mutuamente.
Para quem estuda, aprende, ensina ou lidera na interseção entre gestão, estratégia e sustentabilidade, a mensagem é inspiradora: diante dos desafios da transição do capitalismo, temos a chance de, com equilíbrio, co-criar um modelo econômico onde crescimento, equidade e regeneração ambiental que não seja através de opções conflitantes, maspilares interdependentes.
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