A automação é técnica, a transformação é humana
agosto 12, 2026
A inteligência artificial está consolidada, e o debate sobre o seu impacto no mercado de trabalho continua sendo de grande importância. A série de estudos do McKinsey Global Institute sobre agentes, robôs e trabalho, complementada pelo relatório de julho de 2026 sobre a América Latina, mostra dados e reflexões que são fundamentais para as pessoas e as organizações. Ao invés de pintar um cenário apocalíptico de substituição em massa, o estudo revela uma realidade menos impactante.
O relatório aponta que, tecnicamente, 57% das horas de trabalho nos EUA já poderiam ser automatizadas com as tecnologias atuais . O novo relatório da McKinsey sobre América Latina afirma que 57% das horas de trabalho da América Latina, considerando 15 economias, poderiam teoricamente ser automatizadas. Isso pode soar alarmante, mas a chave da análise está em outro dado: essa é uma medição de potencial técnico, não uma profecia de eliminação de empregos. O futuro, segundo a McKinsey, não é sobre robôs tomando nossos lugares, mas sobre uma nova era de parceria entre pessoas, agentes de IA e robôs .
Com a IA assumindo tarefas repetitivas e de processamento de dados, como a coleta e a consolidação de informações para relatórios de sustentabilidade, nós, humanos, podemos nos concentrar em capacidades que, atualmente, continuam dependendo fortemente de julgamento humano, como interpretação contextual, pensamento estratégico e, acima de tudo, a construção de relacionamentos e a liderança regenerativa.
O estudo destaca que mais de 66% das habilidades mais procuradas hoje na América Latina serão relevantes tanto em tarefas automatizáveis quanto nas que não são . A diferença não será a habilidade em si, mas como e onde ela é aplicada. Isso nos leva a um ponto vital para o campo ESG:
- A ascensão da “Fluência em IA” (AI Fluency): esta é a habilidade que mais cresce no mercado. Nos EUA, a demanda por fluência em IA cresceu quase sete vezes entre 2023 e 2025; na América Latina, o crescimento chegou a quase 11 vezes no mesmo período. Fluência em IA não significa se tornar um programador, mas sim desenvolver a competência para usar, gerenciar e colaborar com ferramentas de IA de forma eficaz, entendendo seu potencial e seus riscos. Por exemplo: para o profissional de sustentabilidade, isso significa saber orquestrar agentes de IA para analisar cadeias de valor, modelar cenários climáticos ou otimizar o uso de recursos, enquanto aplica seu julgamento para validar os resultados e guiar a estratégia.
- A Durabilidade das Soft Skills: Enquanto habilidades cognitivas mais rotineiras podem ser automatizadas, competências enraizadas na inteligência social e emocional, como resolução de conflitos, negociação, design thinking, empatia e criatividade, se tornarão ainda mais valiosas. São essas habilidades que nos permitem engajar stakeholders, inspirar mudanças culturais dentro das organizações e navegar pela complexidade dos desafios socioambientais.
Estamos vivendo a “dupla transição” na sustentabilidade: a digital e a verde. E elas estão convergindo de forma acelerada. Dados do LinkedIn mostram que a habilidade que mais cresce entre os profissionais de sustentabilidade é a “IA Responsável”, com um aumento de 517% ano a ano. Da mesma forma, a habilidade verde que mais cresce entre os profissionais de IA é a “Eficiência Operacional”, com um salto de 579%. Isso demonstra que os profissionais mais inovadores já estão pensando de forma híbrida. Entretanto, é importante ressaltar que os números representam o crescimento relativo da presença dessa habilidade nos dados analisados pelo LinkedIn.
O perfil profissional não é apenas de um especialista em sustentabilidade ou em tecnologia. É alguém que entende o impacto ambiental da infraestrutura digital, como o carbono embutido e o consumo energético da IA, e que aplica princípios da economia circular no desenvolvimento de novas tecnologias. Um profissional que busca soluções regenerativas e não meramente otimizadoras.
Este cenário apresenta oportunidades e responsabilidades. Para as organizações, o ganho de produtividade e o valor econômico gerado pela IA só serão alcançados se vierem acompanhados de um redesenho dos processos de trabalho e de um forte investimento no desenvolvimento de habilidades de sua força de trabalho.
Precisamos abraçar a fluência em IA como uma habilidade central, ao mesmo tempo em que devemos cultivar e valorizar o que nos torna inerentemente humanos. É essencial pensarmos o que faremos com o tempo e a capacidade cognitiva liberados pela automação. Se o ganho de produtividade for convertido apenas em mais produtividade, teremos automação. Se for convertido em aprendizagem, inovação, qualidade de vida, sustentabilidade e regeneração, teremos transformação.
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✍ Adriano Motta.
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